quinta-feira, 29 de setembro de 2011

On fear

Eram 2 da manhã quando o telefone tocou. Do outro lado da linha, a enfermeira informou-me que o Nuno tinha entrado em paragem cardiorespiratória e perguntava-me se devia iniciar manobras de reanimação. Disse que não, que não fizessem nada que eu ia a caminho.
Entrei no quarto, olhei para a cama, e vi o pálido reflexo do que em tempos tinha sido um ser humano da minha idade.
Lembrei-me das conversas que tive com ele, da passagem pelas fases de luto, e de, já perto do fim, me ter confessado que morrer não lhe custava. O que lhe custava era morrer sem ver pela ultima vez a filha de 3 anos, a qual tinha sido poupada a ver o pai naquele estado, por decisão conjunta do Nuno e da mulher.
Aqui estava o cadáver de um homem, que tinha tido o azar de, aos 35 anos, ter sido fulminado por um tipo de tumor rarissimo e que me dizia, nos ultimos dias, quando já nada lhe aliviava as dores, que dado as probabilidades serem praticamente iguais entre uma e outra coisa, preferia ter sido fulminado por um raio. E por momentos esboçava um sorriso que logo desaparecia, varrido pela dor que o atormentava.
Aqui estava o cadáver de um homem cuja mulher negociou comigo até ao ultimo dia, na esperança que, milagrosamente, eu conseguisse tirar do bolso da bata uma cura que ninguém mais conhecesse.
Que nas ultimas horas, quando o Nuno, já vergado pela doença e pelas quantidades absurdamente elevadas de analgésicos deslizou até à incosnciência, continuou sentada ao lado dele, a segurar-lhe na mão e a falar com ele como se de uma conversa a dois se tratasse.

Declarei o óbito. Mas não consegui ir-me embora. Perguntei à enfermeira que me acompanhava se se importava que eu a ajudasse a preparar o corpo, e seguindo as suas instruções fui tirando vias, sondas e tudo o mais que era necessário retirar.
No fim ajudei-a a embrulhar o corpo e a transportá-lo até ao elevador.

Não sei se o fiz por me identificar com este homem que era da minha idade, tinha filhos da idade dos meus, e que, por ter morrido durante um mês de verão, tive a oportunidade de acompanhar mais de perto nas multiplas urgências internas que tive que fazer durante esse mês.
Não sei se quando confrontado com a percepção da minha própria mortalidade, percebi que o que lhe aconteceu a ele, me poderia ter acontecido a mim ou alguém que eu amo. E fui invadido por uma sensação de medo como poucas vezes senti na minha vida.

Sei que apenas que quando voltei ao quarto, chorei convulsivamente, pela primeira vez na minha vida profissional.

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