quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Ana, ou a impossibilidade da vida

Penso que a Ana não foi a causadora do meu maior desgosto hospitalar, mas penso que terá sido a portadora do reconhecimento da minha profunda incompetência face à vida (ou face à morte, não sei muito bem).
A Ana entrara pela terceira ou quarta vez...
Doença multi tratada, multi operada, sempre não controlada.
Era um daqueles dias de Fevereiro ou Março chuvosos em que parece que o mundo vai desabar...
Entrei no quarto escuro, abafado, um cheiro indescritível atingiu-me en cheio.
Recordo-a pálida, sudorética, fria, inquieta, a distensão abdominal de uma barriga grávida de ascite, de doença, de desamparo.
Não sei por onde começar. Mesmo agora que o escrevo, à luz de toda a minha preciosa formação e diferenciação não sei por onde começar.
As minhas experiências prévias de morte foram bem vividas, plenas, em paz com o fim da vida, com a doença. Talvez por isso a morte de um doente nunca até então me tenha atingido daquela forma.
Não se pode esperar serenidade, vinda de uma jovem mulher que deixa todas as promessas de vida a meio para morrer.
Olhei para a Ana como quem olha para um doente a salvar, quando não havia nada a salvar, nada a preservar, a não ser o conforto de morrer em paz.
Eu não o soube ver assim...
Quando cheguei ao pé da Ana, ela já não ventilava apropriadamente. Pulmões encharcados, incompetentes, incapazes de fornecer oxigénio suficiente à vida.
Ao invés de preservar o conforto da minha doente enchi-a de drogas. Algaliei-a. Pus-lhe uma máscara de alto débito. Sentei-me ao lado dela. Incapaz de reconhecer que só há um tanto que podemos fazer e nunca conseguiremos ir mais longe que isso.
A agitação e delirium de quem não consegue metabolizar as drogas que continuamos a dar ao corpo na esperança que ele sobreviva, apoderaram-se dela.
Percebendo finalmente que era a dor, o medo e a falta de ar que a molestavam decidi tomar a mais sensata das decisões daquela noite. Chamei o cirurgião e contei-lhe da dor e agitação da Ana e de como tudo o que fizera até ali fora insuficiente, furiosa comigo mesma, pela minha incompetência.
A primeira vez que sedoanalgesiei um doente na vida sem estar sobre a tutela de alguém mais experiente.
Retirei a máscara de alto débito que tanto a molestava, dei-lhe banho, mudei-lhe a roupa da cama, troquei-lhe os pensos.
Deixei-me ficar como se naquele momento não existisse mais doente nenhum no mundo.
Enquanto o sol despontava a Ana bradicardizava, a sua respiração cada vez mais curta e espaçada.
A Ana não morreu na minha presença.
Fê-lo nessa manhã, depois de se despedir do marido.

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