terça-feira, 7 de junho de 2011

On Surgery

Corria o ano de 2006.
Cheia de temor e atafulhada em livros vazios de significado, que me falavam de linhas, agulhas, cortes, facas, nomes difíceis que queriam basicamente dizer se se tinha cortado um bocado, dois bocados ou tudo, cruzei a porta de um hospital.
Nunca mais fui a mesma.
Alterada por aquele ritmo frenético em que se podia decidir sobre vida ou morte em absurdos instantes, deixei-me ficar.
Nos dias em que não me apetece morrer em cima da minha cama, aniquilada por esta escolha louca, penso de mim para comigo que não podia ser outra coisa.
Sempre fui irrequieta e nunca gostei de sítios demasiado calmos.
Lembro-me de pensar que quando fosse grande queria ser como a minha mãe. Soube desde o dia primeiro que não podia ser outra coisa na vida.
Nascida com bicho carpinteiro sabia que não ia sobreviver a sítios demasiado calmos e monótonos (ou talvez soubesse que eles não me sobreviveriam).
A cirurgia de alguma forma incomodou-me.
Demasiada anatomia, demasiada física, demasiada mecânica, demasiada brutalidade. Tempos de reacção demasiado rápidos para a minha lerdeza de espírito.
É preciso aprender a gostar, é preciso ter jeito, é preciso ter um feitio especial. Diziam-me...
Aprendi a conviver com a noção de que um ser humano pode ser adormecido, paralisado, aberto, cortado, remexido, suturado num dia, para se levantar e andar no dia seguinte. Não me apaixonei pela cirurgia, apaixonei-me pelos seus doentes, pelo caminho que percorro com eles, muitas vezes do início da luta, até ao fim.
O tempo passou e eu passei de pessoa que não percebia nada disto a pessoa sentada em silêncio, com o nariz colado ao vidro do observatório cirúrgico. Passaram-se horas, dias, meses em que disse a mim mesma que havia de aprender o suficiente para ser uma boa enfermeira de cirurgia. Daquelas hardcores, que dão luta, que sabem o que fazem, que sabem olhar para os doentes e não os deixam descambar, desprotegidos numa enfermaria.
Aprendi as diferenças e subtilezas, nunca passei a linha para o lado dos ferros. Gosto de pessoas, não saberia viver sem elas. O sevoflurano faz-me dor de cabeça e sou alérgica ao ar do ventilador quando a exposição é prolongada.
Houve um dia em que dei por mim a fazer massagem cardíaca a um homem caído no chão da enfermaria. A confusão à minha volta não me deixava pensar.
Mas naquele instante soube inevitavelmente que estava no sítio certo e que era lá que queria ficar.
O amor não se explica. Dou voltas à cabeça e pergunto-me onde deixei aquela rapariguinha que em 2006 cruzou a porta do hospital para estagiar 3 meses em Cirurgia Geral…
A mesma rapariguinha que em 2008 chorava porque tudo o que queria era um lugar na Cirurgia Geral de um hospital muito especial, sem o qual (ainda hoje) não sabe viver.
Tenho dias em que penso que vivo mais lá do que em casa.
Muito tempo longe de instrumentos afiados deixa-me os nervos em franja. Tenho mau feitio, sou mandona e gosto de uma boa briga.
Gosto igualmente da paz de saber que procuramos fazer a coisa certa no momento certo, porque é a isso que a vida se resume…

Sem comentários:

Enviar um comentário